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terça-feira, 8 de março de 2011

Mulher

Começa o tempo onde a mulher começa

Herberto Helder, Ofício Cantante.

domingo, 19 de dezembro de 2010

«O bosque sagrado»

«O BOSQUE SAGRADO - Poemas de Adília Lopes, Al Berto, Alberto Pimenta, Alexandre O’Neill, Alexandre Pinheiro Torres, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Paula Inácio, António Botto, António Franco Alexandre, António José Forte, António Osório, Armando Silva Carvalho, Carlos de Oliveira, Daniel Jonas, Edmundo de Bettencourt, Eugénio de Andrade, Fátima Maldonado, Fernando Assis Pacheco, Fernando Guerreiro, Fernando Pinto do Amaral, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Gil de Carvalho, Helder Moura Pereira, Herberto Helder, Inês Lourenço, João José Cochofel, João Lopes, Jorge de Sena, Jorge Sousa Braga, José Alberto Oliveira, José Gomes Ferreira, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Nava, Luís Quintais, Luiza Neto Jorge, Manuel António Pina, Manuel de Freitas, Manuel Gusmão, Maria Andresen, Mário Cesariny, Miguel-Manso, Nuno Júdice, Pedro Mexia, Pedro Tamen, Raul de Carvalho, Ruy Belo, Ruy Cinatti, Rui Lage e Vasco Graça Moura.» - PEDRO MEXIA

sábado, 20 de novembro de 2010

Patti Smith

Capa de Patti Smith, Witt, Rei Lagarto/5, Assírio & Alvim, 1983

«Por mais que avancemos tecnologicamente, por favor, não abandonem o livro»,

Patti Smith, ao receber o National Book Award.

sábado, 13 de novembro de 2010

Voando de folha para folha


«A passarada ralha comigo e eu acabrunho-me de culpabilidades. Não é só distrair-me com as andorinhas andarilhas e não reparar nos passarinhos vizinhos. É pior: nem sequer sei os nomes deles… Os rabirruivos, as pegas-rabilongas, os tordos música, os picanços reais, os chapins-azuis… como posso eu conhecê-los e reconhecê-los se até os nomes são novidade? Que traição.
Vou buscar o meu formidável Atlas das Aves Nidificantes em Portugal e aqueles três quilos cheios de vida portuguesa pesam-me como uma tonelada de ignorância. Abro-o e o livro fica leve, soltando o oxigénio da curiosidade, voando de folha para folha.»

Miguel Esteves Cardoso, Público, 31-X-2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Desejo vinho e ser amado

Embora pecador, vil e infeliz,
Não desespero e não corro para o templo como os idólatras.
Embriagado, levanto-me de novo de manhã,
Desejo vinho e ser amado e não mesquita e paraíso.

Umar-i Khayyam, Ruba' iyat - in Diário Assírio & Alvim 2010, no dia de S. Martinho.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Repentina trovoada de Setembro...


SETEMBRO

Repentina trovoada de Setembro
e depois chuvas exaustas;
ainda na praia a corrida
juvenil das ondas;
o abandono dos medronhos caídos
e um súbito olhar grave dum filho de dois anos;
vinhas que sangram,
uvas caminhando para o seu fim;
algumas folhas que descem
e as árvores, como as flores, esperando
a partida silenciosa dos insectos
e o sopro de uma breve chegada.

António Osório, A Luz Fraterna, Assírio & Alvim, 2009, pp. 29-30.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Montesquieu, por Ruy Belo


«As Considerações e as quatro narrativas têm de comum o assunto ou tema que versam: a antiguidade clássica, na parte relativa ao génio romano, predominantemente pragmático. Permitem por vezes, dada a identidade de objecto, apreciar em que medida a diversidade do género — por exemplo, diálogo ou moralidade com objecto histórico — influi no comportamento ou até no carácter das personagens bem como na apresentação dos acontecimentos.»

Ruy Belo

Montesquieu, Considerações sobre as Causas da Grandeza e Decadência dos Romanos

Texto integral, seleccionado, traduzido, apresentado e anotado por Ruy Belo

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

«Gato Maltês» - A colecção de livros de bolso Assírio & Alvim desde 1981


«(...) veio-me parar às mãos um livrinho bem bonito, daquela colecção de que gosto tanto, chamada Gato Maltês».

João Bénard da Costa, in Crónicas: Imagens Proféticas e Outras.
(brevemente nas livrarias, juntamente com O Livro Branco, de Jean Cocteau e Bartleby, de Herman Melville, ambos da «Gato Maltês»).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

«Soneto para Cesário», de Dinis Machado

SONETO PARA CESÁRIO

Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade.

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las.

Contava-te — sei lá! — desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas...

Duma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.

Dinis Machado

In «Diário Ilustrado», de 20 de Abril de 1957, p. 9.
Com ilustração assinada «K.»

Transcrição: Cortesia de Vasco Rosa.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Perfeita como um livro


















(clique na imagem para a aumentar)

— Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é triste e perfeita
como um livro.
Herberto Helder

domingo, 20 de dezembro de 2009

Tigre Tigre, brilho em brasa

O Tigre

Tigre Tigre, brilho em brasa,
Que a floresta à noite abrasa:
Que olho eterno ou mão podia,
Traçar-te a fera simetria?
Em que longe lerna ou céus,
Arde o fogo de olhos teus?
Em que asas ousa ele ir?
Que mão ousa o fogo asir?
E qual ombro, & qual arte,
Pode os tendões do cor vergar-te?
Quando a bater teu cor se pôs,
Que atroz mão? que pé atroz?
Qual martelo? qual o grilho,
Foi teu cér'bro em que fornilho?
Que bigorna? que atra garra,
Teu mortal terror amarra!
Quando estrelas dardejaram
E com seu pranto os céus molharam:
Sorriu vendo o feito o obreiro?
Quem fez a ti fez o Cordeiro?
Tigre Tigre brilho em brasa,
Que a floresta à noite abrasa:
Que olho eterno ou mão podia,
Ousar-te a fera simetria?
William Blake, Canções de Inocência e de Experiência
Tradução de Jorge Vaz de Carvalho, Assírio & Alvim, 2009, pp. 88-89.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Chegou sem ser esperado...

«Chegou sem ser esperado, veio sem ter sido concebido. Só a mãe sabia que era filho de um anúncio do sémen que existe na voz de um anjo. Tinha acontecido a outras mulheres hebreias, a Sara por exemplo.
Só as mulheres, as mães, sabem o que é o verbo esperar. O género masculino não tem constância nem corpo para hospedar esperas. Sinto de novo a agravante de ignorar fisicamente a voz do verbo esperar. Não por impaciência, mas por falta de capacidade: nem mesmo durante as febres de malária me acontecia recorrer ao repertório das fantasias de me curar, de estar à espera de.»
Erri De Luca, Caroço de Azeitona, Assírio & Alvim, 2009, p.13.

domingo, 13 de dezembro de 2009

«Vamos andando» e «Depois se verá»

«CURIOSAS FIGURAÇÕES
Um bom indício do modo como nos relacionamos com Portugal são as nossas autofigurações, as feitas e as por fazer. Quanto às feitas, reparemos em duas, uma popular e outra erudita.
A popular é certamente o Zé Povinho. Desde que Bordalo a pintou, foi constantemente reproduzida e encontramo-la em todo o lado. Mas que significa ao certo? Ignorância ou esperteza? De tudo um pouco, como se tem dito e escrito, em análises rápidas ou de maior fôlego. Mas é exactamente nessa indefinição que ela pode servir para caracterizar a relação que mantemos connosco próprios, ou com o país no seu todo. Coexistimos uns com os outros - e, cada vez mais, com os estrangeiros - em subalternidade e atraso ou em esperteza, razoável desconfiança e quase "retranca" galega?
A erudita encontra-se nos painéis de Nuno Gonçalves. Quando foram, também eles, "descobertos", logo atraíram como um íman uma atenção crescente e vivaz. Passou um século e continuam a olhar-nos, com aquelas dezenas de olhos que nos perscrutam e avisam, não sabemos bem de quê. Nunca uma obra de arte nos interrogou tanto, motivando sucessivas interpretações, tanto dela como nossas. Interpretações, aliás, que aparecem quase como urgentes, para decifrarem finalmente um enigma que é existencial e de nós todos. Como se Portugal se depreendesse dali, como "mensagem", para falar segundo Pessoa, ou como "navegação", para falar segundo Sophia...
Mais enigmaticamente - ou sintomaticamente - há autofigurações não feitas. Escolho uma, por de mais eloquente: estátua que nunca se colocou no pedestal do alto do Parque Eduardo VII. Fosse ou não para Nun'Álvares/Santo Condestável, tratar-se-ia sempre de um "umbigo de Portugal", quase como o de Delfos fora o do mundo. Detecta-se uma polémica em torno daquele lugar vazio, daquele pedestal agora desfeito. Como se já não tivéssemos figuração possível. Como se a relação com Portugal já não lhe encontrasse rosto.
Aqui chegámos, finalmente. Mais como interrogação do que como certeza. Vamos andando, apesar de tudo. E, muito à portuguesa, "depois se verá". O que também é já um grande saber de experiência feito.»
Manuel Clemente, Portugal e os Portugueses, Assírio & Alvim, 2008, pp.16-17.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Peter Handke

É duração que acontece
quando, na criança,
que já não é criança nenhuma
– talvez já seja um ancião –,
volto a encontrar os olhos da criança.

A duração não existe na pedra
antiquíssima e eterna,
mas sim no transitório,
no que é brando e sensível.

Lágrimas da duração, tão raras!,
lágrimas de alegria.

Impulsos inconstantes da duração,
que não se podem pedir
nem numa prece implorar:
estais agora reunidos e articulados
para formar o poema.

Peter Handke, Poema à Duração [tradução de José A. Palma Caetano]

Peter Handke está hoje em Portugal, no âmbito do Estoril Film Festival.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

«Da morte livre»



«Começo pelas palavras. Desenterro livros já lidos. Vou atrás de um daqueles temas que nos perseguem, até que um dia os exorcisamos pela escrita.
[...]
Jean Améry, esse, ultrapassa toda a metafísica. Está aquém dela, como quem prepara serenamente a morte livre, escrevendo sobre ela (em 1976) como se estivesse já a «pôr a mão em si» (a suicidar-se com uma overdose de barbitúricos em 1978, num hotel de Bruxelas). Na abertura do seu livro, notável testemunho de uma morte anunciada, escreve: «Sou eu aquele que “põe a mão em si”, que morre depois de tomar barbitúricos, de os levar “da mão à boca”». O corpo assume a inevitabilidade da sua morte (não importa agora com que motivação, ou a partir de que causa), a consciência «cai em si» e traça a linha divisória entre morrer e escolher a morte. De um lado, é a morte que vem vindo e chama, e eu respondo e vou (passivamente, sem saber como). Do outro, é o agente (actor?) da morte livre que grita: «Vou saltar!». Age, é ele a falar, e a morte é a resposta. O salto é o salto para o abismo e para fora de toda a «lógica da vida» (é este momento antes do salto que, para Améry, «igualiza» todos aqueles que se decidem pela morte livre).

Ninguém que esteja «de fora» pode arrogar-se a pretensão de compreender, muito menos o direito de condenar, este salto do corpo para o além de si. Nem sequer aquele que o dá é senhor dele e o domina. «Nós somos o nosso corpo, não temos o nosso corpo», escreve Améry. Imagine-se esse «ser o corpo» em situações-limite. No limite, a mão age e o corpo, que ela não «tem», explode. É por isso que quem está de fora não pode entender o gesto livre da morte livre.»
Excerto de texto de João Barrento [ler todo AQUI]

sábado, 24 de outubro de 2009

Adília Lopes na Assírio & Alvim


Acaba de chegar às livrarias Dobra - Poesia reunida, de Adília Lopes, ocasião para recordar um dos seus dois poemas («de entre os 7200 que 918 autores nos enviaram») publicados, em 1984, no primeiro Anuário de Poesia - Autores não publicados, iniciativa da Assírio & Alvim que visava «criar um espaço editorial reservado aos poetas não conhecidos.»:
A CORRESPONDÊNCIA BIUNÍVOCA
A princesa tem um anel em cada dedo
tem um dedo em cada anel
tem mil anéis.
A princesa tem um sapato em cada pé
tem um pé em cada sapato
tem mil sapatos.
A princesa tem um chapéu em cada cabeça
tem uma cabeça em cada chapéu
tem mil chapéus.
A princesa tem apenas o estritamente necessário.
Espera a princesa o seu primeiro e milésimo filho?
Anuário de Poesia - Autores não publicados, 1984, p. 14.
Dobra - Poesia reunida, 2009, p. 65.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

As árvores e os livros

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.
E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».
É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
Herbário, poemas de Jorge Sousa Braga com desenhos de Cristina Valadas

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Poema

Até o jade se parte,
até o ouro se dobra,
até a plumagem de quetzal se despedaça...
Não se vive para sempre na terra!
Duramos apenas um instante!

Poemas Ameríndios
(poemas mudados para português por Herberto Helder)

sexta-feira, 27 de março de 2009

FRAGILPOESIA - FIM

Fim


faz-se tarde
e eu deixei de esperar-te.
todos os portos se fecham sobre mim
e a floresta adensa-se —
nenhuma clareira se abre à passagem dos animais
e do homem antigo.
são 4 horas na manhã de todos os relógios.

José Agostinho Baptista, «Eu jeremias criador dos céus e infernos», FragilPoesia, 3ª edição, 26 de Março de 2009.

domingo, 22 de março de 2009

Dia Mundial da Água

«Chove. Chove. Tudo se desfaz. Tudo se dilui. O céu e a terra. O sol goteja. Estende-se nas nuvens negras em debandada e cai com elas na lama. Vemos os seus raios decomporem-se nas gotas de água e arco-íris minúsculos fecundarem a terra.»


Blaise Cendrars, O Fim do Mundo Filmado pelo Anjo N.-D. (tradução, apresentação e notas de Aníbal Fernandes)