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domingo, 16 de janeiro de 2011

«Deixou-nos filmes escritos»

João Bénard da Costa, Arrábida, 1960

«João Bénard era e é um escritor. Programador de filmes sim, mas não se tente arquivá-lo na académica gaveta dos historiadores de cinema e muito menos na gaveta dos críticos de cinema. A estratégia de programação de João Bénard era servida por um dispositivo narrativo que, literariamente, a replicava e a complementava.
[…] era assim, indomável, que o João escrevia torrencial, apaixonado, cada texto um monte dos vendavais. E esta compulsiva dramatização do acto da escrita contaminava a própria escrita. Os milhares de textos que o João Bénard nos deixou estão furiosamente invadidos de aventuras, aventuras de comboios a entrar em túneis escuros, aventuras de vertigens em campanários, como as de Cary Grant ou Jimmy Stewart nos amados Hitchcock. São textos que estilhaçam todos os tabus de sexo e morte e nos oferecem tantos jardins de prazer como os filmes que lhes deram origem. São textos – para usar um termo que o faria soltar uma gargalhada – pregnantes de drama.
São textos em que João Bénard reescreve cada filme. Só com palavras volta a iluminar a cena, recompõe o enquadramento cortando um bocadinho mais à esquerda, e volta a chamar os actores redesenhando-lhes a boca, os olhares, a angústia de uma despedida ou de um reencontro, a inadjectivável solidão de Rosebud, trenó esquecido na neve, a pasmosa alegria de toda a glória da vida no milagre da ressurreição que Dreyer encenou em “Ordet”.
O que é que o João nos deixou escrito? Deixou-nos filmes escritos. Chamem-lhes se quiserem filmes-textos ou textos-filmes.
Esses textos são cinema porque contêm tudo o que é essencial da mise-en-scène do cinema narrativo – o ângulo da câmara, um travelling, os cambiantes da luz, o esplendor ou dura escassez de um décor.
Esses textos são literatura porque cumprem todas as unidades dramáticas do romanesco, enunciam conflitos, dão densidade e dimensão a personagens, desenvolvem com exaltação peripécias e incidentes que fazem avançar a acção e, por fim, happy-end ou final trágico, resolvem o conflito.
Foi assim que o João escreveu a maioria das suas folhas. Tantas vezes com o olhar cheio de infância, o João escreveu em harmonia e fé como se pudéssemos ainda encontrar um mundo perfeito, inocente e inaugural, igual ao que nos faz chorar no “How Green Was My Valley”, de John Ford.
Muitas e tantas outras vezes, o João escreveu com um pessimismo profundo, mergulhando numa metafísica da perda, como se, uma vez doente, à esplêndida rosa que o verme mordeu, nada lhe pudesse já restituir o fulgor, a graça, a plenitude. Nothing can bring back the hour / the splendor in the grass, the glory in the flower. Ou de como, tantas vezes, o escritor João Bénard foi irmão gémeo de Nathalie Wood, essa trémula e perdida criação a que Elia Kazan chamou Deanie Loomis.»

Manuel S. Fonseca

[Ler texto completo, sob o título «João Bénard, as pessoas e o amor», AQUI]

Obras de João Bénard da Costa no catálogo da Assírio & Alvim: Os Filmes da Minha Vida / Os Meus Filmes da Vida (2 volumes); Muito Lá de Casa (1 volume); Crónicas: Imagens Proféticas e Outras (já disponíveis 2 de 4 volumes a publicar).

domingo, 19 de dezembro de 2010

Crónicas de João Bénard da Costa



Já disponíveis dois dos quatro volumes a publicar.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

João Bénard da Costa, hoje na Feira do Livro do Porto

Um ano volvido sobre o desaparecimento de João Bénard da Costa, a Feira do Livro do Porto homenageia aquele a quem Eduardo Lourenço chamou “O Senhor Cinema português”, de que foi um dos grandes protagonistas nas últimas décadas. Foi através do seu olhar que muitos vimos e aprendemos (e continuaremos a aprender com os muitos livros que nos deixou) a ver os filmes. A ver o que lá está e o que não nos tínhamos apercebido que lá estava. Os seus textos (as muitas Folhas da Cinemateca – agora também em livro – as muitas crónicas, monografias, catálogos) seduzem-nos e levam-nos aos filmes. Que João Bénard da Costa amava. E gostava de partilhar esse amor connosco. Em textos “parciais e apaixonados”. Pelo cinema. Pela pintura. Pela literatura. Pela música. Pela vida.
Para além dos catálogos da Cinemateca, JBC publicou Os Filmes da Minha Vida, os Meus Filmes da Vida (já em segunda edição), um segundo volume Os Filmes da Minha Vida, o livro sobre actores e actrizes Muito Lá de Casa, histórias do cinema português, etc.. Acaba de sair o 1º de uma série de 4 volumes de Crónicas – Imagens Proféticas e Outras, organizado por Lúcia Guedes Vaz, que no dia 4 estará presente na sessão (às 21:00 horas) A CASA ENCANTADA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA, juntamente com Maria João Seixas, actual directora da Cinemateca Portuguesa, e João Pedro Bénard. Segue-se (22:00 horas) a exibição, ao ar livre, de JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray, o filme da vida dos filmes da vida de João Bénard da Costa, numa cópia cedida pela Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

João Bénard da Costa § 7/2/1935 — 21/5/2009

O DIVINO BÉNARD


Divino no sentido de divo, que ele sem o ser plenamente foi, com o seu porte de velho senhor, o mesmo riso de demiurgo que quase juramos haver já visto fixado pelos romanos em alguma estatuária, o brilho hiperbólico, a inteligência analogamente intensa, o timbre cavo, a curiosidade, a coquetterie, o enigma e, por fim, surpreendentemente ou não, a inocência.
E divino também no sentido literal, na medida em que essa era a natureza do seu olhar. Quando João Bénard explicava aos incautos (os mesmos que, sem o saber ou dizer, chegam tão cautos) que o seu tempo não era este, não era o deles, era o da maria cachucha, que reivindicava ele? Uma imperdoável apostasia: a de um contemporâneo que se coloca na pré-história.
O seu tempo era aquele em que o homem que pensa não é apenas o sábio, mas também vidente e profeta. Foi assim que Epiménedes de Creta teve o privilégio de ver a verdade (aletheia) com os próprios olhos. E Moisés entreviu a Deus pelas costas. Foi assim que na tradição persa o termo verdade (Rta) se alargou a um extensivo de possibilidades semânticas: a exactidão, mas também a mecânica que assegura o retorno da aurora, a oração litúrgica, a ordem e o direito. A verdadeira diagnose é esta que não teme, mas religa o que apressadamente declaramos como antinomias: Deus e os homens, o visível e o invisível, o eterno e o mortal, o permanente e o mutável, o forte e o fraco, o puro e o híbrido, o seguro e o incerto.

A escrita de Bénard, costurada em digressões permanentes, parêntesis e alvéolos, mostra, além disso, como a palavra é inseparável da memória. Nos ambientes gregos inspirados, ela era tida por omnisciência de carácter divinatório, expressa no mantra: «o que é, o que será, o que foi». Nos meios judaicos e cristãos, era interpretada pelo binómio profecia e cumprimento. A memória não é apenas o suporte da palavra: é, sobretudo, a potência (poética, maiêutica…) que confere ao verbo o seu estatuto de significação máxima.

«Serás o que Deus é», escreveu o místico Silesius.

José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

«Gato Maltês» - A colecção de livros de bolso Assírio & Alvim desde 1981


«(...) veio-me parar às mãos um livrinho bem bonito, daquela colecção de que gosto tanto, chamada Gato Maltês».

João Bénard da Costa, in Crónicas: Imagens Proféticas e Outras.
(brevemente nas livrarias, juntamente com O Livro Branco, de Jean Cocteau e Bartleby, de Herman Melville, ambos da «Gato Maltês»).

domingo, 7 de fevereiro de 2010

«Crónicas: Imagens Proféticas e Outras», de João Bénard da Costa


O Centro Nacional de Cultura e a Assírio & Alvim convidam-no(a) para assistir ao lançamento do livro Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, de João Bénard da Costa, que terá lugar no Centro Nacional de Cultura, dia 8 de Fevereiro às 19h00. Apresentam o livro Guilherme d'Oliveira Martins e José Tolentino Mendonça.

Centro Nacional de Cultura / Galeria Fernando Pessoa - Largo do Picadeiro, 10, 1.º [porta ao lado do café No Chiado].

quinta-feira, 28 de maio de 2009

João Bénard da Costa - 10 filmes da sua e da nossa vida

Um ciclo que começa hoje no Campo Alegre, no Porto, e que recomendamos.