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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Vai e Vem

Vai e Vem, de João César Monteiro, encerra o ciclo Poemas com Cinema, hoje às 22h, no Teatro do Campo Alegre, no Porto.


VAI E VEM

I

É de todos sabido que
o 100 tanto desce como sobe
- e fiquemo-nos
pelo estreito declive que vai
da praça das Flores ao Príncipe Real.

Vi hoje um filme sobre isso
- português, embora não muito suave,
e avesso, como pôde, aos brandos
costumes da morte. Detive-me, pouco
depois, sob a frondosa árvore da noite.
À espera, claro, de não ver ninguém.
(…)

Manuel de Freitas, in Poemas com Cinema (org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós, Rosa Maria Martelo), Assírio & Alvim.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

«A única luz é a do arcabuz»

VAI E VEM, opus derradeiro do cineasta João César Monteiro [Figueira da Foz, 2 de Fevereiro de 1939 - Lisboa, 3 de Fevereiro de 2003], encerra o ciclo POEMAS COM CINEMA, na próxima terça-feira, 8 de Fevereiro, no Teatro do Campo Alegre, no Porto.

«O tal saber de experiências feitas (por vezes tão falaz) não se inquietou com o filme seguinte. Atemorizou-se à ideia de que “Vai e Vem” não acabasse, que o movimento da vida cessasse antes do movimento da câmara. Por muito pouco necrófilo que se seja, é quase impossível deixar de associar filmes filmados nessas circunstâncias a filmes- testamento.
Quando, num plano especular, que parece póstuma homenagem a tantos e tão belos planos especulares da obra de César, se vai Urraca — a das barbas — que, sem elas ficou igual, “sem tirar nem pôr”, a Adriana, essa dimensão, sempre latente, invade tudo (banda- imagem e banda- som) na nona das dez viagens do eterno vai e vem do autocarro da carreira 100. É quando o coro dos ucranianos canta a canção “Enganaste-me, traíste-me”. E o protagonista ou a protagonista da canção (nesse coro, o sexo é indefinido) também foi enganado e traído dez vezes, entre a segunda-feira de uma semana e a quarta da semana seguinte.
É a seguir a essa viagem que lemos no autocarro, onde, logo no princípio, víramos, em vez dos habituais anúncios, “A única luz é a do arcabuz”, a frase “Some came rambling”. No filme de Minnelli de 1959, alguns (sobretudo verdade para Shirley MacLaine) passaram a correr. Neste, João Vuvu passou a “vaguear” ou a “vadiar”. João de Deus, Max Monteiro, João Vuvu, ou seja quem for o personagem que João César Monteiro habitou entre as “Recordações da Casa Amarela” (1989) e “Vai e Vem” (2003) foi, acima de tudo, o Vagabundo. Talvez, depois de Chaplin, ninguém merecesse tanto esse nome como ele.»

João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 1º vol., Assírio & Alvim.

ANTIGA CASA FAZ FRIO
(…)
A si, João César, daria todos os meus cigarros.
Mas agora, suponho, era coisa de pouca serventia.
O marinheiro da entrada manda-lhe saudades.
E olhe que a cozinha está melhor e o tinto
de Trancoso não provoca nem repulsa nem azia.

Manuel de Freitas, in Poemas com Cinema (org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós, Rosa Maria Martelo), Assírio & Alvim.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ciclo Poemas com Cinema - momento 3

O terceiro momento do Ciclo Poemas com Cinema, a propósito da antologia com o mesmo título, terá lugar na terça-feira, 1 de Fevereiro, às 22h, no Teatro do Campo Alegre, Porto, numa organização da Medeia Filmes, com a Assírio & Alvim e o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da FLUP, e o apoio da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema.
Será exibido um dos maiores filmes da história do cinema, um filme sobre filmes, a obra-prima de Billy Wilder, Sunset Boulevard/Crepúsculo dos Deuses, com Gloria Swanson, William Holden, Erich Von Stroheim, Nancy Olson, Cecil B. DeMille, Buster Keaton, Hedda Hopper…

(…)
mas às vezes gloria swanson ainda desce as escadas, coleando prateada
contra o salitre das paredes, segundo todas as regras de escola,
e a acção volta a começar sob os projectores acesos numa cruel proposta
para o fim
da carne que deixou de ser luminosa e quente e versátil,
(…)

Vasco Graça Moura, in Poemas com Cinema (org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós, Rosa Maria Martelo), Assírio & Alvim

(…) depois viria a massa
das horas no escuro, olhando formas
luminosas que sombras envolviam,
o sentido que a noite dava ao dia

ao rodear o rosto de Swanson,
(…)

Gastão Cruz, ib.

«[…] Sunset Boulevard começa com a câmara rente ao chão, a fazer-nos ler “Sunset Boulevard” e termina no contra-plongée de Norma e na sua avançada para a câmara até ao assombroso plano final (com todo o resto – the people, nós – no escuro). É um filme que vem de além-túmulo, contado por uma voz de além-túmulo. Nesse reino de tais mortos todos somos convidados pelo máximo de exibicionismo ao máximo de voyeurismo. E Billy Wilder – num dos filmes mais cruéis duma obra que decorre sob o signo da crueldade – sabe que do lado de lá e do lado de cá do mundo dos filmes, do mundo da vida e do mundo da morte (realizadores, actores, espectadores) ninguém resiste a esse convite.»


João Bénard da Costa, Billy Wilder, As Folhas da Cinemateca, ed. Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

«O Couraçado Potemkine»





O ciclo POEMAS COM CINEMA, a propósito do lançamento da antologia POEMAS COM CINEMA, acabada de editar pela Assírio & Alvim, prossegue hoje no Teatro do Campo Alegre, no Porto, com a exibição de O COURAÇADO POTEMKINE, de Serguei Eisenstein, um filme que mudou radicalmente o cinema e um dos maiores da sua história.

A não perder o filme. A não perder o livro.

COURAÇADO POTEMKIN
(depois de ver o filme de Eisenstein)

(…)
Partiu há muito tempo. Era em Odessa,
no Mar Negro. Deu a volta ao mundo.
O mundo é vasto e vário e dividido, e os mares
são largos.
Fechem os olhos,
cerrem fileiras,
o couraçado vem.

Jorge de Sena, in Poemas com Cinema (org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós, Rosa Maria Martelo), Assírio & Alvim, 2010.

(o couraçado Potemkin)
De Odessa, pela escada, quem se faz ou morre
e quem deveras queima, inútil, uma chama
de luz nenhuma e nem calor fugaz?
(…)

Pedro Tamen, ib.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Poemas com Cinema - lançamento

(clicar na imagem para a aumentar)

É já na próxima quinta-feira, no Porto. Contamos com a sua presença.

O livro está disponível nas livrarias.

sábado, 8 de maio de 2010

Cinema na Feira do Livro de Lisboa

Devido à chuva, estes filmes serão exibidos no stand da BI. Uma vez que as condições não serão as ideais será feita mais tarde uma sessão com estes filmes em data e local a anunciar.

(clique na imagem para a aumentar)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Herberto, os índios Guaranis, a literatura e o cinema


–Instruções–
(Guaranis)


«Quando está prestes a nascer uma criatura que alegrará
quem ostenta a insígnia da masculinidade,
o emblema da feminilidade,
envia à terra uma palavra-alma para nela encarnar»,
disse o Pai Primeiro
aos pais verdadeiros das palavras-almas dos filhos.
«Então à boa palavra-alma que enviares à terra, para nela encarnar,
dirás:
enfrenta com muita força a morada terrestre;
mesmo que todas as coisas se ergam contra ti,
enfrenta-as com muita força.
Guarda-me no teu coração.
Farei com que a minha palavra circule em ti e te inspire.
Guarda-me no teu coração.
Farei com que os meus inúmeros e secretos filhos excelsos
digam palavras inspiradoras.
No tamanho do coração, no dom de esconjurar os malefícios,
não haverá na terra ninguém como os meus inúmeros e
secretos filhos excelsos.
Então, quando estiveres com muita força na morada terrestre,
inspirado pelas palavras-almas,
nada te alcançará com tanta força na morada terrestre,
nada contra a tua palavra-alma inspirada com muita força.»

Poemas Ameríndios, poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, 1997.


«Birdwatchers, seleccionado para a competição no Festival de Veneza, chama a atenção para a luta dos índios Guarani-Kaiowá do Brasil, cujas terras estão a ser destruídas para a produção de bio-combustíveis para automóveis e outros veículos.»

Herald Tribune

«[...] a questão era “como” fazer o filme, com que linguagem cinematográfica, com que estratagemas. Sabia que o problema principal seria escolher os actores que interpretariam aquelas histórias. Mas que actores profissionais poderiam fazê-lo? Depois encontrei a resposta a esta pergunta numa tarde, durante uma reunião com uma autoridade do governo: aqueles homens e mulheres indígenas que observavam enquanto falavam em voz alta com as autoridades de Brasília possuíam uma arte retórica sofisticada, sabiam falar num modo convincente, com grande controlo das palavras e do corpo. A partir daquele momento tive a certeza absoluta de que o filme existiria apenas se conseguisse tornar aqueles indígenas os seus protagonistas. Sem eles não faria sentido. A fim de confirmar aquela minha primeira intuição pedi a um jovem indígena de nome Osvaldo, da comunidade de Ambrósio, se lhe interessava ser actor num filme. Perguntou-me o que queria dizer ser actor num filme, e eu respondi-lhe que ser actor significava representar uma personagem, que tinha necessidade de aprender a recitar. Ele pensou nisso durante um segundo e respondeu-me “mas eu já recito todos os dias”. “E quando?”, perguntei: “Todos os dias, quando rezo” respondeu. Os seus rituais são representações “teatrais”, manifestações e diálogos com Nhanderu, o seu Deus. Recitar está presente na sua tradição milenar.»
Marco Bechis, realizador de Birdwatchers – A Terra dos Homens Vermelhos (fotos acima), em exibição numa sala perto de si.


Também na Assírio & Alvim: Colecção «Coisas de Índios»

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Requiem Para D. Quixote no cinema


Adaptado ao cinema. Em exibição numa livraria perto de si.

Requiem Para D. Quixote nas salas de cinema como Contrato.