quinta-feira, 14 de março de 2013

Secretário da Alma


A memória é o túmulo dos meus versos.
Haverá sempre mausoléus
Para a língua
Enquanto a boca invocar a palavra húmida de sangue,
Cálida de tempo, de breves alegrias e de humores
Onde a voz possa correr, livre,
Sem ser apunhalada pela industriosa mão,
Vazia, maquinal, da morte.

Todos temos corpos que os séculos hão-de consumir.
Mas a fala produz o pensamento,
A mão desenha a letra, o poema enaltece,
No leito sensual feito de frases
Adormece a beleza.
E a inocente, esquiva música das sílabas,
Enlouquecida,
Desperta.

Secretário da alma, o coração
Não descansa na laje da morada em que sossega.
Estremece nos seus sonhos,
E volve em seu redor o olhar desmesurado:
É dia de além sol, além lua, além distância,
Rasgadas as palavras de abandono
E luta. Mas a Terra é a escrita,
E o livro o Universo.


in «Anthero, Areia & Água» de Armando Silva Carvalho (14-03-1938)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ruy Belo — 27/02/1933 § 08/08/1978


O poema «Muriel», dito por Luís Miguel Cintra.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Lançamento de «A Paixão», de Almeida Faria

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A Assírio & Alvim e a Fnac têm o prazer de o/a convidar para o lançamento de «A Paixão», de Almeida Faria, que se realizará no dia 28 de fevereiro, pelas 18h30, na Fnac Chiado, em Lisboa. O evento contará com a presença do autor e a apresentação estará a cargo de Pedro Mexia.

Contamos com a sua presença.

§

«Almeida Faria escreveu um poema épico, deveras, porque todas as suas descrições, todas as suas enumerações, todas as suas variações imaginárias e baseadas na hipótese da situação e subjetividade humana […] tecem um diálogo entre os objetos como objetos e os objetos como sinais; porque o cruzamento entre as diversas vivências cíclicas do tempo concreto, ou vivido, reacorda no leitor a ânsia interrogativa sobre o de agora e o de sempre sobre o que se repete e o que é realmente novo […].» Óscar Lopes

«A Paixão será porventura a mais espessa cortina de linguagem que a literatura portuguesa terá produzido na segunda metade do século XX. Podemos dizer, quase nostalgicamente, que já foi grande a escrita em português.» Luís Quintais

«Um livro de pura genialidade da juventude.» Eduardo Lourenço

«Ao ler A Paixão de Almeida Faria no início dos anos 70, entrei em imediata comunhão com essa  obra-prima, ao ponto de colar ao Lavoura Arcaica, sem qualquer pudor, certas imagens e metáforas daquele poema em prosa.» Raduan Nassar

«Todo o génio de Almeida Faria está na expressão rigorosa da fértil união entre o sagrado e o profano.» La Quinzaine Littéraire, França

«O seu segundo romance, A Paixão, possui as mesmas qualidades literalmente espantosas de Rumor Branco, sendo ao mesmo tempo mais despojado e mais apaixonado; desta vez a severidade é implacável, e a composição aposta numa disciplina exemplar.» Books Abroad, EUA

«Na minha geração, lembro-me de sair A Paixão de Almeida Faria e eu com 19 anos a pensar: nunca chegarei aos calcanhares deste homem.» António Lobo Antunes



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

«Os Poetas» - Um projecto musical de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes - estão de volta!

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O projecto «Os Poetas», de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes, está de volta e estão já agendados três concertos, o primeiro deles no Porto, já no próximo dia 3 de Março, na Casa da Música. Um espectáculo a não perder!

Para além dos concertos, que darão origem a um novo CD com faixas inéditas gravadas em 2012, é com orgulho que se comunica a reedição do álbum «Entre nós e as palavras», publicado originalmente em 1997 e desde há muito esgotado, um projecto ímpar na história da discografia nacional, onde alguma da melhor poesia portuguesa das últimas décadas do século XX se faz ouvir, pela voz dos seus autores, ao som de composições criadas por Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro.

Dizer-se que a música acompanha a enunciação dos textos não basta, pois a ambição foi maior. Com efeito, neste álbum os compositores criaram um ambiente ou universo sonoro em que a palavra dos poetas actua, com o seu tempo e ritmos próprios – mas nesse universo também se encontram diversos temas exclusivamente instrumentais; momentos em que só a palavra domina, como os de António Franco Alexandre, ou de Mário Cesariny em «Pastelaria» e «You Are Welcome to Elsinore»; e ainda o belíssimo «Quem Me Dera (Amanhã)», composto por Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro e cantado por este último. Do conjunto destes 16 temas ressalta a noção de uma viagem por uma paisagem sonora onde a arte e a poesia predominam.

Este álbum, que é um autêntico e intenso exercício sobre a arte poética, nasceu de circunstâncias e encontros felizes. Rodrigo Leão abandonara os Madredeus em 1994 para prosseguir uma carreira a solo. Dois anos depois, também o acordeonista Gabriel Gomes e o violoncelista Francisco Ribeiro saíram do grupo. Manuel Hermínio Monteiro, responsável editorial da Assírio e Alvim, que tinha a seu cargo o espólio de diversos poetas portugueses, preparava as comemorações do 25º aniversário desta editora e localizara diversos registos sonoros dos seus autores. Rodrigo Leão teve conhecimento disso e convocou os companheiros para este projecto, que desde logo encontrou bom acolhimento junto de Tiago Faden, da Sony Music.

A maioria das composições e arranjos foram criados na Primavera de 1997, durante algumas semanas de recolhimento numa casa da Ericeira em companhia da violetista Margarida Araújo. As sessões de gravação tiveram lugar no estúdio Tcha Tcha Tcha no início do Outono, sob a direcção de António Pinheiro da Silva; Carlos Jorge Vales recuperou digitalmente as gravações originais dos poetas; e o disco foi publicado antes do Natal desse ano, numa embalagem com concepção gráfica de Manuel Rosa e ilustrações de Ilda David', que incluiu também a reprodução dos poemas.

Como escreveu Manuel Hermínio Monteiro, «o processo desenvolve-se por uma disfarçada humildade dos compositores que tudo fazem para acentuar os sentidos da palavra e da voz (...). Resulta assim um encontro inédito e feliz entre a música e a poesia, revelando, simultaneamente, a diversidade da lírica portuguesa desta última metade do século».




sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

11 de Janeiro 1984 / quarta — 23h. / Sines, R. do Forte

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[…]
[Cada vez escrevo / produzo menos, mas o pouco que produzo requer tempo. Requer toda a minha disponibilidade, toda a minha paixão. Não posso continuar com coisas exteriores à minha escrita a perturbarem-me. Tenho de avançar rapidamente com o projecto que me obceca há muito. O tempo faz-se escasso.
Faz um frio de partir os ossos. Os dias cheios dum sol espantoso, uma limpidez que se vê a costa até ao Cabo Sardão. Às vezes desejaria ter sido pastor, homem transumante. Ir e regressar, com o sol e com as chuvas, ir e regressar sempre com o ciclo das estações…
Fiz 36 anos, hoje, acabaram-se para sempre algumas coisas, outras iniciam-se agora, só a juventude não se recomeça nem tem início hoje… Tenho de começar a habituar-me à grande desolação dos dias, sempre mais vazios, sem ninguém, porque assim o quis.
A partir de hoje tenho o tempo todo para escrever, para não fazer nada, envelhecerei calmamente. Tenho a certeza. Não há tempo, ainda bem!]

in «Diários», de Al Berto (11-01-1948 § 13-06-1997)

OS CANTORES DE LEITURA de MARIA GABRIELA LLANSOL POESIA E CONTOS | LEITURAS ENCENADAS


"A Casa da Saudação", Fotografia de Augusto Joaquim © Espaço Llansol


15 JAN ÀS 19H NO SALÃO NOBRE DO TNDM II § ENTRADA LIVRE

A leitura, a escrita, a casa e o espaço que habitamos representam os temas escolhidos para a seleção que agora se apresenta de "Os Cantores de leitura", último livro de Maria Gabriela Llansol. Foram estes e poderiam ser outros tantos, pois este livro reescreve cada um dos livros anteriores.

Como escreveu Eduardo Prado Coelho, à memória de quem é dedicado este livro, "é a escrita em estado puro (…) no sentido em que a escrita pode ser tentativa de surpreender o que silenciosamente se retira do ruído das palavras em que nos movemos. Machado que tem por função quebrar o mar gelado que há em nós – para usar e belíssima e inultrapassável expressão de Kafka. (…).”

seleção de textos Margarida Lages 
coordenação da leitura Paulo Lages
com Guilherme Filipe e Paulo Lages

Mais informações aqui.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Sérgio Godinho no Porto de Encontro


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No próximo domingo, dia 17 de dezembro, decorrerá um Porto de Encontro muito especial, com Sérgio Godinho. A partir das 17:00 na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto. Não falte!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Entrevista na Ferin e apresentação na Quinta das Lágrimas

Amanhã, José Tolentino Mendonça estará na Livraria Ferin, a partir das 18:30, onde será entrevistado pela jornalista Maria João Costa em mais um «Ensaio Geral na Ferin», uma parceria entre a Livraria Ferin, a Rádio Renascença e a Booktailors. Apareçam!

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E também amanhã, em Coimbra, decorre uma apresentação do livro «O Concerto Interior — Evocações de um Poeta». A partir das 19h00, na Quinta das Lágrimas, com a presença do autor e apresentação a cargo do Professor Doutor Seabra Pereira, da Doutora Isabel Delgado e do Dr. António Arnaut. Se estiver em Coimbra ou passar por lá, não falte!

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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Lançamento dos «Diários» de Al Berto e Festa dos 40 anos da Assírio & Alvim

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No próximo dia 7 de dezembro, partir das 21:30, vamos ter uma excelente apresentação dos «Diários» de Al Berto feita por Golgona Anghel, leitura de excertos desses «Diários» por Luís Lucas, um concerto d'Os Poetas (um projecto musical de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes) e música noite fora 
com o DJ Zeus, aka Jorge Pereirinha Pires, DJ Dub Fanatic, aka Helder Moura Pereira e DJ Victor Alves. No Frágil, pois claro!

A entrada é livre mas pedimos a todos que nos confirmem a sua presença pelo e-mail editora@assirio.pt. Contamos com a vossa presença!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Próximas apresentações de livros


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Apresentação do mais recente livro de poesia de José Tolentino Mendonça, «Estação Central» — no próximo dia 29 de Novembro (quinta-feira), pelas 18h30, na Livraria Assírio & Alvim Chiado, com a presença do autor, apresentação a cargo de Manuel Gusmão e leitura dos poemas por Luís Miguel Cintra.


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E no dia seguinte, sexta-feira dia 30 de novembro, pelas 18h30, é apresentado na Livraria Lello, no Porto, o livro «O Concerto Interior — Evocações de um Poeta», de António Osório, com a presença do autor e intervenções de Mário Cláudio, Luís Miguel Queirós e Sara Araújo. Se está no Porto, não falte!

sábado, 24 de novembro de 2012

Marque na sua agenda - mais informações em breve...

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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Apresentação do livro «Estação Central», de José Tolentino Mendonça. Amanhã, no Porto

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Amanhã, pelas 21h30 no auditório da Biblioteca Municipal do Porto decorrerá uma apresentação do mais recente livro de poesia de José Tolentino Mendonça, «Estação Central», com a presença do autor, apresentação a cargo de Rui Lage e leituras por Rui Spranger. Se está no Porto, não falte!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Apresentação de «O Concerto Interior» em Setúbal

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Decorrerá amanhã pelas 21h30, no Fórum Municipal Luísa Todi em Setúbal, uma apresentação do mais recente livro de António Osório, «O Concerto Interior», com a presença do autor e intervenções de João Reis Ribeiro, Daniel Pires e António Carlos Cortez. Se está em Setúbal, ou vai passar por lá, não deixe de participar. Contamos com a sua presença!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Luz das Palavras — Homenagem a Manuel António Pina e Lançamento de Novos Livros


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Decorrerá no próximo domingo, dia 18 de novembro, um ciclo de homenagem a Manuel António Pina no Museu Nacional da Imprensa*, com o título «A Luz das Palavras». 

Para além da inauguração de uma exposição com o mesmo título, onde serão contempladas as facetas de jornalista, escritor e poeta de Manuel António Pina, serão também lançados nessa ocasião o inédito «Aniki-Bóbó», um ensaio de Manuel António Pina sobre o filme homónimo de Manoel de Oliveira, a reedição de «O Pássaro da Cabeça» e o livro de Ana Folhadela, «A Princesa e a Loba», entre outras atividades. A partir das 16:00.

O lançamento de «Aniki-Bóbó» decorrerá pelas 17h00, com apresentação a cargo do Dr. A. Roma Torres. O lançamento dos livros «O Pássaro da Cabeça» e «A Princesa e a Loba» decorrerá pelas 18h30, com apresentação de Álvaro Magalhães e Ana Folhadela e um momento musical pelo Bando dos Gambozinos, que musicou alguns dos poemas de «O Pássaro da Cabeça».

*Estrada Nacional 108, n.º 206 · 4300-316 Porto (ao Freixo)
Tel. 225 304 966 § www.museudaimprensa.pt


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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

125 anos do nascimento de Amadeo de Souza-Cardoso

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Hoje comemora-se o 125.º aniversário do nascimento de Amadeo de Souza-Cardoso. Um excelente pretexto para revisitar a obra deste genial artista português, precocemente desaparecido. Por exemplo, através dos livros que publicámos na Assírio:

http://www.assirio.pt/livros?palavra=amadeo


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

40 anos de livros e de imaginação

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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

«Rumor Branco», 50 anos depois… Amanhã, na Fnac Chiado

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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Amanhã — a não perder!

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Próximos Lançamentos — Contamos Consigo!

60 Canções de Sérgio Godinho — 7 de novembro, 
pelas 18h30, no El Corte Ingles de Lisboa

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Rumor Branco — 8 de novembro, pelas 19h00 
na Fnac Chiado

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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina — 18/11/1943 § 19/10/2012




TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.