sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

António Sérgio

Feira do Livro de Lisboa 2009. Foto A&A

Faz hoje 61 anos que nasceu António Sérgio, «a voz profunda». Razão mais do que suficiente para voltarmos a um seu texto já publicado neste blogue.

«As visitas do Zé Pedro e principalmente do Kalu ao "Som da Frente" na Rádio Comercial nunca constituíram surpresa para mim, eram constantes depois da publicação do 79-82, e na altura mais dura de roer quando perderam o guitarrista ou ficaram sem editora. Foi nessa altura que percebi claramente que os Xutos, mais do que banda de rock, são uma autêntica unidade de combate: quando não tinham guitarrista e enquanto não aparecia outro, toca a fazerem-se à estrada em trio (apesar do Zé Pedro não ser um solista)... se não tinham editora, então vieram falar comigo para conhecer o modus operandi da indústria fonográfica para (imagine-se na altura) tentarem uma edição de autor.
Tudo acabou por se resolver, veio O Cerco com a Dansa do Som, depois o contrato com a Polygram, o trabalho com um produtor que também era músico (o Carlos Maria Trindade), o Circo de Feras, o êxito do Contentores, as tournées esgotadas e o culminar com o estrondoso (e fumarento) concerto do Pavilhão do Belenenses.
Por isso, quando após esta sucessão feliz de eventos voltei a ter uma visita do Kalu, aí sim fiquei surpreendido. E o que trazia ele na manga?
"Tu é que eras o gajo indicado para falar com a Ana Cristina e convencê-la a escrever o nosso livro. Afinal a malta já conseguiu quase tudo mas falta-nos ter um livro." O Kalu era um tipo atento, gostava muito de visitar Londres e sabia da quantidade de livros que existiam a contar as histórias de músicos, bandas, enfim a retratar dum certo modo mais arrumado as várias cenas musicais então existentes.
"Sabes, é uma fezada que eu tenho, oiço muitos textos da Cristina aqui no 'Som da Frente' e ela tem jeito." Também achava isso mesmo e logo que regressei a casa, não pude falar do recado do Kalu pois ela dormia mas escrevi um post it amarelinho com o pedido que me alegrara muito.
A Ana Cristina tinha qualidade, engenho e sensibilidade em tudo o que tinha feito para rádio, abordava com facilidade tópicos de natureza muito diferente. Acima de tudo tinha uma capacidade invulgar para transformar mesmo os temas mais "bicudos" em peças radiofónicas que captavam a "orelha" do ouvinte, abordando com facilidade tópicos de natureza distinta, enquadrando som e textos numa linguagem radiofónica própria e inovadora à época em Portugal no que se referia a música alternativa. Agora porém, surgia um novo desafio pois tratava-se de um livro.
Que eu reparasse não houve hesitações. A Ana é uma unidade à Xutos, pronta para a acção, para o combate aos atavismos, às incertezas, às dificuldades.
Quando escrevi o tal recado que coloquei na cabeceira da cama da Ana naquela noite, adormeci com uma dúvida na cabeça: como iria ela retratar e até recriar a cena musical de um país como o nosso?
O método utilizado consistiu em entrevistar os Xutos um a um e, depois em grupo de 2, 3, ou mais. Orientou as conversas, o q.b. para manter o foco e não cortar "a onda de memórias", e captou-as no gravador de cassetes Sony adquirido para o efeito. Daí resultaram intermináveis serões de captação em cassete, ao longo de muitos meses, em que o Tim, o Zé Pedro, o Kalu, o Gui e o menos palavroso Cabeleira contaram, entre gargalhadas e nostalgia mas sempre genuínos, as histórias mais pitorescas, mais ou menos picantes, com que se depararam ao longo de muitos anos de estrada. Sessões de trabalho mas acima de tudo de alegria e boa disposição.
Conhecendo a prática jornalística inglesa empregue em livros sobre grupos de rock e pop, invariavelmente figuras públicas de contornos comportamentais polémicos, como se iria contar uma (ou várias) histórias de músicos nossos amigos, com famílias próximas, até já com filhos, sem que o resultado fosse um imenso bocejo, caso se extirpassem as menções aos "berlaites", às "bubas", às noitadas, etc.
Essas dúvidas dissiparam-se face à puerilidade, à autoconfiança, afinal o carácter genuíno com que os Xutos debitaram para o gravador todo aquele quotidiano vivido no frenesim da estrada, afinal a sua razão de ser. Recentemente nas declarações de várias pessoas no 30º aniversário o Luis Montez afirmava num jornal diário que tinha conhecido nos Xutos "... a melhor malta do mundo". Percebemos o que ele queria dizer!
Mantendo a estratégia do trabalho de campo, a Ana resolveu em seguida entrevistar toda a gente (mas toda mesmo) que tivesse tido uma pontinha de contacto com eles... surgiram então o Pedro Ayres de Magalhães, o Ricardo Camacho, a Lola, o Paulo Junqueiro, o Pedro Lopes, o Vítor Silva, o José Wallenstein, enfim praticamente "todo o mundo" que tinha algo para contar, algo para opinar, qualquer coisa para celebrar e para fazer brilhar os olhos. Voltámos a perceber porquê!
Depois da gigantesca recolha e da morosa transcrição das conversas estarem concluídas, faltava arrumar aquilo tudo (e dou graças a Deus por não ter sido eu a fazê-lo). A Ana tinha tudo planeado, as peças do puzzle, por mais que variadas e de interligação difícil, encaixavam resultando num livro ágil, rápido e aliciante de se ler, digno duma banda de vivência nua e crua. Digno dos Xutos e Pontapés.
Porque se tratava não duma banda qualquer mas sim da maior banda de rock portuguesa, um punhado de músicos que munidos de inegável talento, com uma bagagem de canções notáveis e sempre capazes de comunicar com as sucessivas gerações de portugueses num simples piscar de olhos cúmplice, que pegaram a carreira de caras, cheios duma energia transbordante mas também com uma noção responsável de persistência, vinda de quem sabe que não há nem sucessos nem vitórias fáceis!
A crítica musical recebeu o livro Conta-me Histórias com apreço. Manuel Falcão considerou: "... um objecto de culto, a inauguração duma nova era do livro musical no nosso país". Pedro Rolo Duarte classificou-o como "um objecto Rock".
Para o saudoso Manuel Hermínio Monteiro, que tão sagazmente manteve a música em livro através da colecção Rei Lagarto, era uma vitória para a menina dos seus olhos... a Assírio & Alvim.
Para mim o maior motivo de orgulho é poder voltar às histórias dos Xutos neste Conta-me Histórias e ainda voltar a rir, voltar a ter gozo em relê-lo.
That's the stuff dreams are made of!


ANTÓNIO SÉRGIO

Fevereiro 2009
«Prefácio», Conta-me Histórias - Xutos & Pontapés, de Ana Cristina Ferrão

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Xutos & Pontapés

PARABÉNS!

«No dia 13 de Janeiro de 1979 a sala dos Alunos de Apolo estava cheia e enfumarada. Na pista de dança os pares vestidos a rigor pareciam saídos de algum filme dos anos cinquenta, popas, rabos-de-cavalo, saias rodadas, blusões de cabedal, brilhantina a rodos, sapatos com sola de ceilão, botas de salto espanhol, cais-cais ousados, camisolas de gola alta... (...).
Era a festa comemorativa dos 25 do Rock'n Roll!
(...)
A surpresa seria a apresentação de uma banda estreante, os Xutos & Pontapés Rock'n roll Band, que fazia questão em frisar que Rock'n roll Band era apelido. Já passava das três da manhã quando invadiram o palco como um tornado, debitaram a uma velocidade incrível quatro temas originais e abandonaram o palco sem que muitos dos presentes dessem por eles.»

Ana Cristina Ferrão, Conta-me Histórias - Xutos & Pontapés, Assírio & Alvim, 2009, p. 27

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Amanhã, lançamento de «Poemas com Cinema», no Porto

(clicar na imagem para a aumentar)

É já na próxima quinta-feira, no Porto. Contamos com a sua presença.

O livro está disponível nas livrarias.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

«no marítimo lodo da fala fazem ninho / pássaros de sal com suas asas afiadas (...)»

Al Berto
[11 de Janeiro de 1948 - 13 de Junho de 1997]

domingo, 9 de janeiro de 2011

Hoje à tarde

A Assírio & Alvim livros, no Chiado [Pátio do Siza, ao fundo - entrada pelas ruas Garrett, 10 / Carmo, 29], estará aberta ao público durante o dia de hoje, das 15:00 às 19:00 horas. Venha dar um passeio ao Chiado e visite-nos!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Estreia logo à tarde...


Estreia hoje, dia 8 de Janeiro, sábado, no Teatro da Luz, em Lisboa.

«…todos se esqueciam de responder ao José Maria. Ou pelo menos todos se esqueciam de lhe responder como ele queria que lhe respondessem. Por isso, o rapaz ia ficando sem saber algumas coisas, coisas acerca das quais ainda não tinha construído certas ideias. Ideias acerca de certos e determinados assuntos. Era isto que ainda se passava, por exemplo, com o tamanho da sua altura…».
O Tamanho da Minha Altura, de Suzana Ramos (texto) e Marta Neto (ilustração) e editado em 2009 na colecção «Assirinha», é um fascinante livro infantil, vencedor do «Prémio Literário Maria Rosa Colaço – 2007», atribuído pela Câmara Municipal de Almada.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Helder Moura Pereira [Setúbal, 7-I-1949]

Apagaram-se as luzes azuis da ambulância
e mais ficou na nossa imagem a cor do sangue.
No trajecto vi mais o teu ser do que à mesa,
na cama, no trabalho, o que vi deixou-me
descansado: humano, demasiado humano.
Tudo podia ter sido mais fácil, eis o que pode
dizer qualquer um, e mesmo que quase não
haja dinheiro para o táxi e te sintas à beira
do precipício, levanta a garganta e berra
para aí até já não haver quem te oiça.
Da missa metade não soube em tua história
e também não é preciso, todos nós já corremos
para um hospital e viemos de lá a cheirar
a doença e a morte. Por nós ou por outros,
nessa grande casa da tristeza e do alívio,
democracia total o acaso que dispara
e acerta ou não acerta em quem vai a passar.
Alguém te segura à beira da derrocada
e te pergunta saberás se lá no fundo há
algo que valha a pena? Pode ser que sim,
pode ser que não, ninguém sabe.

SE AS COISAS NÃO FOSSEM O QUE SÃO (2010)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Poemas com Cinema - lançamento

(clicar na imagem para a aumentar)

É já na próxima quinta-feira, no Porto. Contamos com a sua presença.

O livro está disponível nas livrarias.

Dia de Reis na Assírio & Alvim

(clicar na imagem para a aumentar)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Malangatana

«Malangatana Ngwenya Valente nasceu em 6 de Junho de 1936 em Matalana, Moçambique, África Oriental "portuguesa".
Em Lourenço Marques, capital da "província", para onde parte depois de ter estudado nas escolas das Missões, trabalha como criado, primeiro como baby-sitter, depois num clube desportivo, e enfim como cozinheiro do pessoal de um clube elegante.
Frequenta uma associação artística local, o "Núcleo de Arte", e conhece o arquitecto Alpoim Guedes, que o convida para sua casa e o anima a inspirar-se unicamente em si-mesmo e no legado cultural que traz consigo. Com efeito, e sobretudo nessa época, a arte na África portuguesa era o joguete do academismo estético e moral do Ocidente, posto a andar de duas maneiras: "pôr do sol", "queimadas", e "Vénus Negras", se o pintor era branco; Cristos e Virgens-Santas para os escultores "colonizados".
É assim que, não mergulhando senão nas suas próprias forças e só escutando a voz mágica familiar (seu pai fora um "homem-medicina" e Malangatana associara-se como ajudante de feiticeiro aos ritos e operações do cháman), se torna o primeiro (em força e em data) pintor "absolutamente moderno" do complexo cultural nativo da África Oriental "portuguesa".
[...]»

Mário Cesariny, As Mãos na Água, a Cabeça no Mar, Assírio & Alvim, 1985, p. 283.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Gato Maltês - 30 anos

1981-2011


«De todas as nossas colecções, uma parece estar mais perto do coração. Chama-se GATO MALTÊS e, como o gato das histórias, tem muitas vidas e, no seu conjunto, pretende, em pequenas dimensões e sob excepcional aspecto gráfico, dar ao conhecimento do leitor português um leque diversificado do melhor da literatura universal.»

«Colecção Gato Maltês» (excerto de folheto promocional de Março de 1986, distribuído aquando do lançamento de O Gosto Solitário do Orvalho, de Matsuo Bashô)

«Há colecções preferidas nas editoras? No caso da Assírio & Alvim, há. E essa colecção tem a presença, o mistério, a familiaridade e irrequietude de um gato. Um gato maltês. Anais Nin, Borges, S. João da Cruz, Pound, Conrad, Whitman, D. H. Lawrence, Eliot, Malcolm Lowry, Céline, Bashô, Henry James, Novalis, Melville, Pascoaes, Yeats, Tarkovskii e Cocteau, todos eles deram "garras" à literatura universal, imprimindo-lhe um temperamento felino e inovador. Escolhendo um a um e juntando-os na sua pluralidade de escritas, inaugurámos uma singular e notável colecção de pequeno formato, na vida editorial portuguesa. Usamos o maior rigor na selecção e execução de cada título. A poesia publica-se em edição bilingue. As traduções são muito selectivas, como as de Aníbal Fernandes ou as de João Almeida Flor. Mas há aqui um particular que gostamos de realçar: o diálogo e o confronto de poetas portugueses com o texto original trazido ao português. Daí o "charme" da Gato Maltês. Com alguns dos seus pequenos livros em versões da autoria de diversos poetas de diferentes gerações: Herberto Helder, Cesariny, José Bento, Jorge de Sousa Braga, José Agostinho Baptista, Gil de Carvalho, Paulo da Costa Domingos, Fiama Hasse Pais Brandão. Por isso, acarinhámos esta edição de A Voz Humana. Pelo belo texto de Cocteau e igualmente pela singular versão do poeta Carlos de Oliveira. Ambos dão mais fôlego ao persistente gato que "ameaça" prosseguir activo pelos muitos lares dos melhores leitores para despeito e temor das muitas ratazanas que tentam desfeitear a Grande Literatura Universal.»

«Gato Maltês - uma colecção felina», folheto comemorativo do centenário do nascimento de Jean Cocteau, distribuído por ocasião do lançamento de A Voz Humana e da homenagem realizada entre 22 de Fevereiro e 8 de Março de 1989.

Janeiro de 1981 - edição de O Teatro, de Emma Santos, primeiro livro da colecção Gato Maltês; Janeiro de 2011 - esteja atento às novidades e reedições que preparámos para assinalar os 30 anos desta colecção. Damos assim novo «fôlego ao persistente gato que "ameaça" prosseguir activo pelos muitos lares dos melhores leitores para despeito e temor das muitas ratazanas que tentam desfeitear a Grande Literatura Universal». Ontem e hoje.

Bom Ano!



«[...] não é bom começar um ano a repisar desgraças e muito menos a antevê-las.»

João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 2º vol., A&A, 2010.

BOM ANO DE 2011!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Uma saborosa passagem de ano!

Documenta Poetica - colheita de 2010







Poesia Inédita Portuguesa - colheita de 2010







quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Alfinete - colheita de 2010



Assirinha - colheita de 2010



Rei Lagarto - colheita de 2010


100

PAUL BOWLES
{30-XII-1910 / 18-XI-1999}

Obras de Paul Bowles na Assírio & Alvim: O Céu que nos Protege (Tradução de José Agostinho Baptista, colecção «O Imaginário»); A Missa do Galo (Tradução de José Agostinho Baptista, colecção «O Imaginário»); Deixa a Chuva Cair (Tradução de Ana Maria de Freitas, colecção «O Imaginário»); Por Cima do Mundo (Tradução de David Antunes e Sara E. Eckerson, colecção «O Imaginário»); Poemas (Tradução de José Agostinho Baptista, colecção «Documenta Poetica»); Memórias de Um Nómada (Tradução de José Gabriel Flores, colecção «Testemunhos»).

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Gato Maltês - colheita de 2010