se do fundo da garganta aos dentes a areia do teu nome,
se riscasse com a abrasadura, se
em cima e em baixo mexido às escuras,
o forno com a mão a ver se ela podia
que uma púrpura em flor fosse até ao coração,
unhas e tudo,
que estremecesse, não por dito mas sabido
contra ti, e por artes
antigas trazer o ar, fazer uma
iluminação:
mudar o mundo para que o nome coubesse,
vivaz, tocado, fértil,
houvesse um dom inseparável, música, verbo:
se eu pudesse, se a terra
se atrasasse,
se pudesse em amarga língua portuguesa com o teu nome em qualquer
parte,
para eu mesmo riscar contra ti,
raiar contra ti,
sob
serapilheiras de sangue
In A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita
domingo, 23 de novembro de 2008
Herberto Helder (aniversário)
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
domingo, 16 de novembro de 2008
«Requiem Para D. Quixote»
Disponíveis on-line, em pdf, as primeiras 29 páginas do livro Requiem Para D. Quixote, de Dennis McShade (Dinis Machado).
Acesso a partir da barra lateral direita ou aqui.
Lançamento no próximo dia 18, terça-feira
(para mais informações, veja o post acima).
sábado, 15 de novembro de 2008
Ciclo
De 17 de Novembro a 14 de Dezembro, no CCB
Para ver o programa do ciclo, clique sobre a imagem
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Convite — Nós e os Clássicos: A Bíblia Sagrada por José Tolentino Mendonça
COMUNIDADE DE LEITURA
NÓS E OS CLÁSSICOS
A Bíblia Sagrada
13 de Novembro, quinta-feira, às 19:00 horas
Com José Tolentino Mendonça
Leitura paralela:
A Leitura Infinita: Bíblia e Interpretação, José Tolentino Mendonça
De um clássico toda a primeira leitura é na realidade uma releitura.
É clássico o que persistir como ruído de fundo mesmo onde dominar a actualidade mais incompatível.
Italo Calvino
Porquê ler os clássicos?
Qual a relação possível entre os grandes livros e as grandes questões da actualidade?
Porque ler é uma forma de conhecer o outro...
Porque ler é uma forma de partilhar o mundo...
Porque cada leitor tem direito à comunhão com outros leitores...
A Livraria Almedina-Atrium Saldanha convida todos os que gostam de ler a descobrirem os grandes clássicos da Literatura Universal, apresentados numa perspectiva de ligação com a actualidade, por leitores excepcionais. A comunidade NÓS E OS CLÁSSICOS alarga o conceito de discussão da experiência de leitura prévia de um livro, experimentado desde Março de 2006 pela COMUNIDADE DE LEITORES ALMEDINA, centrada na Literatura Portuguesa Contemporânea.
Numa série de 12 sessões mensais, discutem-se agora os grandes textos que mudaram o entendimento do Homem sobre a realidade e a imaginação. Da Bíblia, do Alcorão ou do Talmude e da Mishna, da obra de Homero, Dante ou Shakespeare às teorias de Marx, Einstein ou Freud ou à obra de Proust, Joyce ou Kafka. À procura de sinais do passado no presente, em análise e em relação com outras leituras e com a experiência de vida de cada um, NÓS E OS CLÁSSICOS.
Todas as sessões são abertas ao público em geral.
INSCRIÇÕES:
Livraria Almedina
Atrium Saldanha
Pç. Duque de Saldanha, 1
Loja 71 – 2º Piso
Tel: 213 570 428
Contacto: Duarte Martinho
Organização: Filipa Melo e Almedina
CONSULTE:
Almedina
domingo, 9 de novembro de 2008
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Olga Roriz premiada
Olga Roriz, coreógrafa e bailarina, foi distinguida com o Grande Prémio Millenium bcp.
Cerimónia a 3 de Dezembro, no âmbito da Gala de Autor (Teatro Nacional de São Carlos).
Veja aqui detalhes sobre o seu livro.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Adalberto Alves
Adalberto Alves foi distinguido com o Prémio Sharjah 2008 para a Cultura Árabe (UNESCO)
«O objectivo do prémio é distinguir personalidades, grupos ou instituições que tenham contribuído de forma significativa para o desenvolvimento, a difusão e a promoção da cultura árabe no mundo e também a preservação e revitalização deste património cultural.
Atribuído pela primeira vez em 2001, o prémio Sharjah tem distinguido sempre duas personalidades, uma do mundo árabe e outra de um país não árabe, como acontece este ano com o português Adalberto Alves.»
Público, 7 de Outubro de 2008
Cerimónia a 17 de Novembro, em Paris.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
II Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura
Dias 23 e 24, na Fundação Calouste Gulbenkian, a II Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura.
A entrada é livre
Clique nas imagens para ver o programa.
Dia 23
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Quintas de Leitura
José Tolentino Mendonça é o poeta convidado das Quintas de Leitura.
23 de Outubro (quinta-feira) de 2008.
Reconhecimento dos laços
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um abrigo mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Myra
A partir da próxima semana (dia 23) nas livrarias, Myra, o novo livro de Maria Velho da Costa
Myra
Maria Velho da Costa
Edição brochada (224 pp.)
Classificação: Romance
Colecção: A Phala
16 €
Aqui fica o segundo capítulo deste livro:
Era noite cerrada. O camionista Kleber segue pela faixa da direita. As traves de madeira estralejam por detrás da cabine. Ora se vê, ora não se vê bem o perfil hirsuto, ruivo, de Kleber. A miúda vai sentada ao seu lado com o cinto de segurança por cima da manta de que só tira uma das mãos para afagar a cabeçorra do cão aos pés. E para ter comido o hamburger que Kleber lhes comprou na estação de serviço.
Os antigos egípcios acreditavam que era um deus-cão, Anubis, que os conduzia na barca dos mortos, diz Kleber.
Eu queria que este se chamasse Tzar, mas eles não deixaram. Que era falta de respeito. Ficou César.
Vem a dar ao mesmo, Sónia. Um nome é um destino. E depois?
Não é não, senão a pessoa mudava de destino cada vez que mudasse de nome. E depois, já lhe contei, só que comecei pelo fim, quando o Senhor Kleber me apanhou na berma, toda encharcada, com o César neste estado.
Myra continuou a bela narrativa. Kleber não parecia espantado,
nem incrédulo. Como se tudo na vida fosse possível.
Depois eles fizeram-me vir de lá tinha eu seis anos para eu não ficar ladra como os meus irmãos. A minha avó chorou muito. Eu vim de carrinha em carrinha. Ninguém tinha papéis, mas os que me iam trazendo tinham sempre dinheiro e onde ficar. Quando cheguei aos meus pais não os conheci. Eles também choraram muito mas eu chorava mais com saudades de casa da avó, que era muito pobre mas tinha um quintal e às vezes lá conseguia que eles lhe dessem dinheiro para comprar um ganso que ela engordava com sobras de pão seco e couves do quintal. Isto no Verão porque no Inverno passávamos muito frio a pedir na neve à porta de S. Basílio e das entradas quentes do Metro, até nos enxotarem por causa dos turistas. Escumalha russa, diziam, escumalha russa.
Santa mãe Rússia, disse o Sr. Kleber, abrandando para deixar passar uma carrinha com um carregamento de fardos de palha. Para lá cortiça, para cá palha e betoneiras. Santa mãe Mundo.
O cão vai vivo?
Vai sim, agora que comeu e bebeu água da chuva. E vai quente.
E Myra afagou o que não seria mais Rambo.
Vais bem, César?
E o cão agitou a cauda.
Bom, bom, também sabia mentir.
E depois?, disse o Sr. Kleber. Como foi cá? Desamarra-lhe a corrente. Há para aí um cinto, o bicho no estado em que está não precisa de levar tanto ferro no cachaço.
Tantos cuidados, pensou Myra. Se eu tiver que fugir deste, como é que faço?
E continuou com a sua narrativa mirífica pela noite e estrada dentro. Clareava. Havia plainos e sobreiros descarnados e casas caiadas, com os pés, as portas e as janelas em azulão. Casas caiadas. Já não estavam na auto-estrada mas num ramal bordejado de mimosas em flor. Pode-se ser morto e esquartejado em qualquer lugar, mas Myra, ladina, não tinha muito por onde escolher. Nem que ele lhe pedisse uma mamada e isso ela tinha aprendido a fazer.
Falta muito?, perguntou Myra, no desvio do descampado deserto, agreste de árvores cinza na madrugada, rebanhos de ovelhas e bois com a cabeça descida à terra ocre, de fome, de sono.
Falta o que falta da tua história. E o Sr. Kleber sorriu.
Não tenhas medo, miúda. Em todas as histórias há sempre uma ponta do paraíso, um véu de clemência que estende uma ponta, fugaz que seja.
O Sr. Kleber é professor?
Não, mas fui bem ensinado. Não como crianças e muito menos carne de cão. Ora diz lá, que até chegarmos há tempo.
O que é uma herdade, senhor Kleber?
É aquilo que se herda, mas também se compra e vende.
É sua, a casa?
São várias casas, como cogumelos aos pés de um castanho, que é a patroa, na Casa Grande. É para lá que vais. E depois? Há quanto tempo tens o cão, Sónia?
Há cinco anos, mentiu Myra mais.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Apresentação do livro «A Minha Escola Não É Esta», de Pedro Strecht
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Helder Moura Pereira — Prémio PEN Clube de Poesia
Helder Moura Pereira foi laureado com o Prémio PEN Clube de Poesia 2008, pelo seu livro Segredos do Reino Animal (Assírio & Alvim, 2007), ex-aequo com Daniel Jonas (com a obra Sonótono — Cotovia).
J.M.G. Le Clézio e a escrita
«Vou-vos dizer, vou-vos explicar tudo. Tinha, portanto, dez, doze anos e morava nessa velha casa que dava para o porto, um pouco napolitana, completamente a cair, com lençóis a secar a todas as janelas do pátio, gatos semi-selvagens que lutavam nos telhados e, claro, os bandos de pombos. Nesse tempo não sabia o que era um escritor, não fazia a menor ideia, nem suspeitava que tinha havido um escritor chamado Jean Lorrain que habitara a mesma casa, outrora. Recordo esta casa sobretudo na época do calor, no Verão e no começo da Primavera, porque deixávamos as janelas abertas e escutávamos o barulho dos gaivões e os arrulhos dos pombos. Mas havia especialmente um barulho que mexia comigo. Não posso verdadeiramente dizer porque é que me inquietava, mas ainda hoje quando penso nisso me arrepio e entro numa espécie de estado de melancolia e impaciência que precede o momento em que sei que terei de me sentar em qualquer lado, ali mesmo onde estou, agarrar num caderno e numa lapiseira e começar a escrever. Este barulho, eram as vozes dos jovens que chamavam uns pelos outros no pátio, que gritavam os seus nomes. Havia os rapazes que assobiavam, e os outros que metiam a cabeça à janela, e diziam: "Estás abonado?" E os de cima: "Onde é que vão?" Eles iam já não sei onde, à praia ou à feira, ou simplesmente conversar à esquina da rua, ou esperar as raparigas que saíam da escola Ségurance, isso já não tem nenhuma importância. Mas quando ouvia aqueles assobios, e os nomes que ecoavam no pátio, imaginava uma vida diferente da minha, imaginava as correrias pelo infinito das ruas, imaginava os banhos na água fria do mar, o sol, o cheiro dos cabelos das raparigas, a música dos dancings, a aventura, a noite. Nunca ouvi chamar o meu nome no pátio, nunca ouvi assobiar por mim. Eu vivia na mesma casa, mas era outro mundo. Aqui está, é por isto que eu escrevo.»
J.M.G. Le Clézio, in Libération, Março de 1985 [retirado de A Phala 36; tradução de Ana Cristina Leonardo].
J.M.G. Le Clézio

J.M.G. Le Clézio é Nobel da Literatura de 2008.
Inédito de Herberto Helder a partir de hoje nas livrarias
A Faca Não Corta o Fogo — Súmula & Inédita
Herberto Helder
Colecção: Grãos de Pólen
208 pp.
edição encadernada
20 €
se do fundo da garganta aos dentes a areia do teu nome,
se riscasse com a abrasadura, se
em cima e em baixo mexido às escuras,
o forno com a mão a ver se ela podia
que uma púrpura em flor fosse até ao coração,
unhas e tudo,
que estremecesse, não por dito mas sabido
contra ti, e por artes
antigas trazer o ar, fazer uma
iluminação:
mudar o mundo para que o nome coubesse,
vivaz, tocado, fértil,
houvesse um dom inseparável, música, verbo:
se eu pudesse, se a terra
se atrasasse,
se pudesse em amarga língua portuguesa com o teu nome em qualquer
parte,
para eu mesmo riscar contra ti,
raiar contra ti,
sob
serapilheiras de sangue
Já disponível também no nosso site, aqui.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
«Pois, como diria Peter Maynard»
«Como partilhávamos o mesmo encanto pelas coisas menores da vida, aquelas que normalmente não dão grandes carreiras e muito menos grandes romances, passámos muitas horas a falar de livros policiais e de filmes negros. Desse por onde desse, a conversa acabava sempre por ir dar ao mesmo. Ainda que tivessem caído dois arranha-céus em Nova York, ou uma onda gigante tivesse engolido a ilha de Ceilão, para nós era muito mais importante recordar o Borsalino tombado para os olhos com que o Bogart fazia, com o mesmo à vontade e praticamente a mesma gabardina, tanto de Sam Spade como de Philip Marlowe.»
Leia aqui na íntegra o texto que José Xavier Ezequiel dedicou a Dinis Machado [1930-2008]
Oiça um excerto da entrevista a Miguel Esteves Cardoso para a TSF
Miguel Esteves Cardoso é entrevistado por Carlos Vaz Marques para a rádio TSF (programa Pessoal... E Transmissível). Hoje, por volta das 19h (com repetição depois do noticiário da uma da manhã).
Oiça aqui um excerto da entrevista — Miguel Esteves Cardoso fala da imprensa e dos blogues: Get this widget | Track details | eSnips Social DNA
Relembramos que pode ler aqui as primeiras páginas da mais recente obra deste autor, Em Portugal Não Se Come Mal.






